Terça, 25 de Junho de 2024
Cinema FILME

Quem está no topo do Triângulo da Tristeza?

Este texto não pretende ser uma análise ou uma crítica do filme, já tão falado. São só reflexões pessoais

26/03/2023 às 12h13 Atualizada em 16/04/2023 às 12h26
Por: Marcela Guimarães
Compartilhe:
Elenco de Triângulo da Tristeza (Divulgação)
Elenco de Triângulo da Tristeza (Divulgação)

Indicado a três Oscar e vencedor de nenhum, o filme Triângulo da Tristeza me chamou atenção primeiro pelo título, gosto de filmes dramáticos. Mas, você não fica triste enquanto está assistindo (só depois). Dei boas risadas, diante de situações absurdas.

 

Na verdade, em certo momento, o espectador fica enjoado. Isso no sentido literal, com vontade de vomitar. Então, se você tem estômago fraco, deixe o balde por perto quando estiver assistindo.

 

Dito isso, bora lá. Para quem ainda não viu, Triângulo da Tristeza é dividido em três capítulos. O primeiro mostra a relação conflituosa do casal de modelos Carl e Yaya, que buscam sucesso no mundo da moda. 

 

Então, vemos uma discussão sobre quem paga a conta do jantar virar um debate dos papéis de gênero. Some isso ao velho mal-estar, entre um casal jovem, sobre a mulher ter mais sucesso profissional do que o homem.

 

Os diálogos são breves e contundentes, transmitindo mais do que aparentam à primeira vista, e abrangem muito mais do que as dificuldades de um casal específico. 

A intenção de destacar as relações de gênero não é superficial; é uma forma de sátira que se materializa através de personagens criados com habilidade e rapidez impressionantes. Eu, sinceramente, não soube julgar quem estava certo no debate. Só sei que a razão está no meio. 

No segundo capítulo, Yaya e Carl estão num cruzeiro de luxo, que é interrompido por eventos estranhos e culmina em um acidente no mar. Enquanto os outros compraram a passagem caríssima, a Yaya ganhou as duas entradas por ser uma influenciadora digital. 

Inclusive, eles são os únicos personagens jovens entre os passageiros. O restante aparenta ter no mínimo meia-idade ou são pessoas idosas.

 

Aqui, começam os absurdos reais. Os passageiros são gente da elite: temos de dono de big-tech a industriais de armas de fogo, passando pelo agro. 

 

Ali, vemos também como a tripulação (funcionários) é treinada para dizer SIM aos clientes, a qualquer custo. Dizer NÃO não existe para eles. A recompensa para as constantes humilhações são as gorjetas. 

 

Em uma das cenas, todos os trabalhadores do navio são obrigados a tirar a roupa e a mergulhar no mar. Só porque uma idosa rica assim quis. 

Se a gente olhar para além da cortina do absurdo, consegue ver o que está por trás: quem tem dinheiro faz o que quer com quem não tem. 

A tripulação ainda recebe reclamações de uma outra ricaça. Ela relata que as velas do navio estão sujas e precisam urgentemente de limpeza. 

 

Velas? Oi? Estamos no século XXI e os navios são movidos a motor. Não importa, a chefe da tripulação diz que vai limpá-las. 

 

Então o capitão, que está bêbado e é um inacreditável estadunidense comunista, chega a bater a real para a passageira, que entra em estado de choque. 

 

Depois do constrangimento, outro oficial consertou a situação, dizendo que vão sim providenciar a limpeza das velas. WTF!!!

 

Vou tentar traduzir de novo a situação. Quem nunca recebeu uma ordem absurda de um cliente ou patrão? E não importa o quão inacreditável seja: quem tem poder sempre tem razão, por mais que, obviamente, esteja errado.

 

Tudo muito bom, tudo muito bem, até que uma tempestade atinge o navio e atrapalha o jantar dessa galera super agradável. Quando é fé, todos começam a expelir os excrementos mais nojentos. Pegue o balde!

 

Na terceira e última parte, o navio é atingido por uma das bombas produzidas na indústria daqueles passageiros e afunda.

 

Os sobreviventes, incluindo Carl e Yaya, precisam unir forças para sobreviver em uma ilha deserta, onde ocorre uma inversão social inusitada. Os donos do mundo viram cordeirinhos obedientes e uma camareira do navio sobe ao poder.

 

Uma ditadura matriarcal do proletariado se forma. Quem é mais útil para aquela comunidade recebe mais comida, quem é mais inútil recebe menos. Mas, não só isso.

 

Conforme a situação se intensifica, as verdadeiras personalidades de cada personagem são reveladas. O naufrágio seria uma analogia a uma revolução social?

 

Se assistiu ao filme e chegou até aqui, pense naquele mundo antes e depois do naufrágio. 

E deixo a questão, qual das duas sociedades é a pior?

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias